Pega o mapa da sua cidade e repara nas linhas que você nunca cruzou a pé. Um rio, uma linha de trem, uma marginal, uma avenida de seis faixas. Elas não aparecem como obstáculo em lugar nenhum, mas o seu mundo a pé termina exatamente ali.
A parte que quase ninguém calcula é o tamanho do desvio.
Um número para entender o tamanho
Digamos que a travessia mais próxima esteja a 1 km de você, e que o lugar aonde você quer ir fique do outro lado, bem na sua frente. Em linha reta são 300 metros.
A pé: 1 km até a ponte, uns 200 metros atravessando, 1 km de volta pelo outro lado. 2,2 km para vencer 300 metros. Sete vezes a distância.
Ninguém faz isso. E é por isso que o outro lado, que fica a 300 metros, é território completamente desconhecido para quem mora aqui há quinze anos.
São Paulo é o caso extremo
O rio Pinheiros corre 25 quilômetros dentro da cidade. Foi retificado a partir de 1928, numa obra que se arrastou até os anos 1950, e em 1970 abriram a Marginal Pinheiros, que, nas palavras da própria descrição histórica do rio, isolou efetivamente o Pinheiros do convívio com a população.
Quer dizer: primeiro endireitaram o rio, depois colocaram uma via expressa entre ele e a cidade.
Em janeiro de 2010 inaugurou-se a Ciclovia Rio Pinheiros, com cerca de 19 quilômetros, e ela devolveu parte desse acesso. Repare no detalhe que importa para quem anda a pé: ela fica na margem leste. Uma margem tem um caminho contínuo de 19 km, a outra não tem.
As travessias existem e todo mundo sabe o nome delas, o que já diz alguma coisa sobre como são poucas: Eusébio Matoso, Cidade Jardim, Morumbi, João Dias. Quando uma ponte vira ponto de referência da cidade inteira, é porque não há muitas.
Para o pedestre há ainda as passarelas. São 221 na cidade, e a prefeitura está gastando R$ 128 milhões recuperando 90 delas, com outras 58 na fila. Esse número de reformas diz duas coisas ao mesmo tempo: que as passarelas importam, e em que estado elas chegaram.
O que isso faz com o seu mapa
Andando, você revela uma faixa de uns 30 metros, quinze para cada lado.
O detalhe é que a barreira não tira área do seu mapa aos poucos. Ela corta. Tudo que está do outro lado fica com probabilidade praticamente zero de ser andado, e não porque você decidiu, mas porque o desvio de 2,2 km decide por você todas as vezes.
Numa cidade cortada por dois rios, uma ferrovia e três marginais, isso não é um detalhe: é o formato do seu mundo. E o formato não foi escolhido por você.
O lado bom da conta é o mesmo número ao contrário. Se tudo do outro lado é desconhecido, então uma única travessia é a caminhada de maior rendimento disponível na sua cidade. Cinco quilômetros do outro lado da ponte são cinco quilômetros inteiramente novos, o que quase nunca acontece perto de casa.
Quatro maneiras de usar isso
- Conte as suas travessias. Abra o mapa e marque, num raio de 2 km, todos os pontos onde dá para passar de um lado ao outro da barreira mais próxima. Quase sempre são menos de cinco, e quase sempre você usa uma só.
- Atravesse uma vez e ande o outro lado. Não atravesse e volte. Atravesse, ande uma hora lá e volte pela travessia seguinte, se houver.
- Use a ciclovia ou o calçadão como espinha. Um caminho contínuo à beira do rio resolve a parte chata do percurso, e ele te leva de uma travessia à outra sem disputar espaço com carro.
- Lembre que barreira não é só rio. Ferrovia, marginal, muro de condomínio, terminal, avenida larga demais para atravessar fora do semáforo. A regra das poucas portas vale igual para todas.
Onde a barreira fica visível
Um contador de passos não mostra nada disso. Ele conta passos e não tem opinião sobre onde eles aconteceram.
Um mapa de névoa mostra na hora. O princípio é o dos jogos de estratégia: o mapa começa coberto e andar dissipa a névoa numa faixa ao seu redor. Como funciona está em a névoa de guerra, mas de verdade.
E aqui aparece a coisa mais fácil de reconhecer de todas. Toda borda reta no seu mapa é infraestrutura. Mancha com contorno irregular é hábito, é o limite natural de onde você resolve ir a pé. Um corte reto de quilômetros é um rio, um trilho ou uma via expressa. Você consegue ler a planta da cidade na sua própria névoa. Fogbreaker transforma isso em porcentagem por distrito com os Territórios.
Sendo honesto
Nem toda travessia dá para fazer a pé, e algumas não deveriam ser feitas. Tem passarela mal iluminada, tem ponte sem calçada, tem acesso que joga o pedestre no acostamento de uma via expressa. Se a travessia mais próxima é uma dessas, a resposta é o ônibus, não a coragem. Isso não é conselho genérico de segurança: é que a travessia ruim é o motivo pelo qual aquele lado continua desconhecido, e fingir o contrário não ajuda ninguém.
Vale também o óbvio do clima. No calor do meio do dia, 2,2 km de desvio em concreto é outra coisa do que parece no mapa.
E a névoa só se dissipa ao ar livre, com GPS. Fogbreaker é gratuito no iOS e no Android.
Se o assunto é o chão embaixo do pé em vez das barreiras, tem por que a calçada muda a cada casa. E se o que falta é um motivo para sair, a feira livre é uma rua inteira que aparece um dia por semana e some no resto.
