← Voltar ao blog

A sombra escolhe o seu trajeto

Joel RenkPor Joel Renk··3 min de leitura

Existe uma decisão que você toma dez vezes por caminhada e nunca pensou a respeito: de que lado da rua andar.

Não é frescura. Em boa parte do ano, no Brasil, é a diferença entre uma caminhada e uma coisa que você abandona no meio.

O número da cidade não é o número do seu bairro

São Paulo tem, no conjunto, 48,18% de cobertura vegetal, o que dá 735,99 km². Parece muito, e é enganoso.

A distribuição é o problema. Jardim São Luís, na zona sul, tem 12,9%. Vila Curuçá, na zona leste, tem 12,5%. Os melhores índices ficam no extremo norte e no extremo sul, nos distritos de Tremembé e Perus, na Cantareira, e em Marsilac e Parelheiros, na Serra do Mar, todos protegidos por parques estaduais. Ou seja: a média da cidade é puxada por área de proteção ambiental onde quase ninguém mora.

Só cerca de 30% das 32 subprefeituras têm índice de arborização acima do recomendado pela OMS. E as pesquisas mostram uma relação direta entre mais árvores e renda per capita mais alta do bairro.

Então a frase "ande na sombra" é um conselho que funciona muito bem em alguns CEPs e não significa nada em outros. Vale dizer isso antes de dar o conselho.

Como a sombra funciona aqui embaixo

Esta parte não dá para traduzir de um texto gringo, porque no hemisfério sul o sol faz o caminho ao contrário.

De manhã o sol vem do leste, então a sombra cai no lado oeste da rua. De tarde é o inverso. E no meio do dia, aqui, o sol passa pelo norte, não pelo sul. Numa rua que corre no sentido leste-oeste, é o lado sul que fica sombreado na maior parte do dia, e é nele que os prédios e as árvores do lado norte projetam sombra.

Numa rua norte-sul, nenhum lado se salva ao meio-dia, e é por isso que ela é a pior escolha entre 11h e 15h.

Isso é regra de bolso, não astronomia: muda com a estação e com a altura do que está ao lado. Mas a direção está certa, e é o contrário do que vale na Europa e nos Estados Unidos.

O que isso faz com o mapa

Andando, você revela uma faixa de uns 30 metros, quinze para cada lado.

Repare no detalhe: 30 metros cobrem a rua inteira. Andar na calçada da sombra ou na do sol revela exatamente a mesma área. A escolha do lado é de graça no mapa, e só custa conforto, o que quer dizer que não existe motivo nenhum para andar no sol.

O que muda o mapa é o passo seguinte. Quando a rua sombreada é a paralela, e não o outro lado da mesma rua, seguir a sombra vira uma regra de escolha de trajeto. E como as ruas arborizadas quase nunca são as avenidas, seguir a sombra te tira sistematicamente das vias grandes, que são justamente as que você já conhece.

Ou seja: a sombra é um gerador de rota disfarçado de conforto.

Quatro maneiras de usar

  • Escolha o lado pela hora. De manhã, lado oeste. De tarde, lado leste. Ao meio-dia, prefira rua leste-oeste e ande do lado sul.
  • Troque de rua, não de lado. Se a paralela é arborizada e a sua não é, a paralela é o trajeto. Costuma custar um quarteirão e devolve uma rua que você nunca andou.
  • Descubra o número do seu distrito. Os dados de cobertura vegetal por distrito são públicos. Saber se você mora num lugar de 12% ou de 40% muda o quanto vale a pena planejar em vez de improvisar.
  • Sem sombra, mude a hora. Onde não tem árvore, nenhuma escolha de lado resolve. Aí o ajuste é sair antes das 9h ou depois das 17h, e não insistir.

Onde isso aparece

Um contador de passos não sabe se você andou no sol ou na sombra, e também não sabe se andou sempre na mesma rua.

Um mapa de névoa sabe a segunda parte, que é a que interessa. O princípio é o dos jogos de estratégia: o mapa começa coberto e andar dissipa a névoa numa faixa ao seu redor. Está explicado em a névoa de guerra, mas de verdade, e os Territórios transformam isso em porcentagem por distrito.

Quem segue a sombra por alguns meses acaba com um mapa de formato diferente do de quem segue o caminho mais curto: menos linhas retas ao longo das avenidas, mais malha fina no miolo dos quarteirões.

Sendo honesto

O problema da sombra não se resolve caminhando. Arborização desigual é política pública, e nenhuma dica de trajeto conserta um distrito com 12% de cobertura. Este texto ajuda você a se virar com a cidade que existe; não confunda isso com dizer que está tudo bem.

Duas coisas práticas. Copa fechada atrapalha o GPS, então trajeto muito arborizado pode gerar traçado impreciso, o que é limitação de aparelho e não de aplicativo. E calor forte é assunto de segurança, não de conforto: sobre isso tem caminhar no calor.

A névoa só se dissipa ao ar livre, com GPS. Fogbreaker é gratuito no iOS e no Android.

E se o assunto for o piso em vez da sombra, tem por que a calçada muda a cada casa.

Compartilhe esta publicação
Continue lendo
walking

Onde dá para atravessar

O Pinheiros corre 25 km dentro de São Paulo e a marginal de 1970 separou a cidade dele. A ciclovia só existe numa margem. Seu mapa a pé tem paredes, e elas têm nome.

4 min de leitura
walking

A feira livre é a rua que você não anda

Desde 1948 a lei manda ter uma feira por semana em cada bairro de São Paulo. São 955 delas, e a sua provavelmente fica numa rua que você só atravessa de carro.

3 min de leitura
walking

Por que a calçada muda a cada casa

Em 200 metros você pisa em oito pisos diferentes. Não é descaso do vizinho: é a lei. Entenda por que a calçada brasileira é assim e como escolher rua por isso.

4 min de leitura
Fogbreaker
Baixe o app

Transforme sua próxima caminhada em aventura

Revele sua cidade caminhando, ganhe XP e suba no ranking com os amigos. Grátis no iOS e no Android.

Baixar na App StoreDisponível no Google Play