Existe uma decisão que você toma dez vezes por caminhada e nunca pensou a respeito: de que lado da rua andar.
Não é frescura. Em boa parte do ano, no Brasil, é a diferença entre uma caminhada e uma coisa que você abandona no meio.
O número da cidade não é o número do seu bairro
São Paulo tem, no conjunto, 48,18% de cobertura vegetal, o que dá 735,99 km². Parece muito, e é enganoso.
A distribuição é o problema. Jardim São Luís, na zona sul, tem 12,9%. Vila Curuçá, na zona leste, tem 12,5%. Os melhores índices ficam no extremo norte e no extremo sul, nos distritos de Tremembé e Perus, na Cantareira, e em Marsilac e Parelheiros, na Serra do Mar, todos protegidos por parques estaduais. Ou seja: a média da cidade é puxada por área de proteção ambiental onde quase ninguém mora.
Só cerca de 30% das 32 subprefeituras têm índice de arborização acima do recomendado pela OMS. E as pesquisas mostram uma relação direta entre mais árvores e renda per capita mais alta do bairro.
Então a frase "ande na sombra" é um conselho que funciona muito bem em alguns CEPs e não significa nada em outros. Vale dizer isso antes de dar o conselho.
Como a sombra funciona aqui embaixo
Esta parte não dá para traduzir de um texto gringo, porque no hemisfério sul o sol faz o caminho ao contrário.
De manhã o sol vem do leste, então a sombra cai no lado oeste da rua. De tarde é o inverso. E no meio do dia, aqui, o sol passa pelo norte, não pelo sul. Numa rua que corre no sentido leste-oeste, é o lado sul que fica sombreado na maior parte do dia, e é nele que os prédios e as árvores do lado norte projetam sombra.
Numa rua norte-sul, nenhum lado se salva ao meio-dia, e é por isso que ela é a pior escolha entre 11h e 15h.
Isso é regra de bolso, não astronomia: muda com a estação e com a altura do que está ao lado. Mas a direção está certa, e é o contrário do que vale na Europa e nos Estados Unidos.
O que isso faz com o mapa
Andando, você revela uma faixa de uns 30 metros, quinze para cada lado.
Repare no detalhe: 30 metros cobrem a rua inteira. Andar na calçada da sombra ou na do sol revela exatamente a mesma área. A escolha do lado é de graça no mapa, e só custa conforto, o que quer dizer que não existe motivo nenhum para andar no sol.
O que muda o mapa é o passo seguinte. Quando a rua sombreada é a paralela, e não o outro lado da mesma rua, seguir a sombra vira uma regra de escolha de trajeto. E como as ruas arborizadas quase nunca são as avenidas, seguir a sombra te tira sistematicamente das vias grandes, que são justamente as que você já conhece.
Ou seja: a sombra é um gerador de rota disfarçado de conforto.
Quatro maneiras de usar
- Escolha o lado pela hora. De manhã, lado oeste. De tarde, lado leste. Ao meio-dia, prefira rua leste-oeste e ande do lado sul.
- Troque de rua, não de lado. Se a paralela é arborizada e a sua não é, a paralela é o trajeto. Costuma custar um quarteirão e devolve uma rua que você nunca andou.
- Descubra o número do seu distrito. Os dados de cobertura vegetal por distrito são públicos. Saber se você mora num lugar de 12% ou de 40% muda o quanto vale a pena planejar em vez de improvisar.
- Sem sombra, mude a hora. Onde não tem árvore, nenhuma escolha de lado resolve. Aí o ajuste é sair antes das 9h ou depois das 17h, e não insistir.
Onde isso aparece
Um contador de passos não sabe se você andou no sol ou na sombra, e também não sabe se andou sempre na mesma rua.
Um mapa de névoa sabe a segunda parte, que é a que interessa. O princípio é o dos jogos de estratégia: o mapa começa coberto e andar dissipa a névoa numa faixa ao seu redor. Está explicado em a névoa de guerra, mas de verdade, e os Territórios transformam isso em porcentagem por distrito.
Quem segue a sombra por alguns meses acaba com um mapa de formato diferente do de quem segue o caminho mais curto: menos linhas retas ao longo das avenidas, mais malha fina no miolo dos quarteirões.
Sendo honesto
O problema da sombra não se resolve caminhando. Arborização desigual é política pública, e nenhuma dica de trajeto conserta um distrito com 12% de cobertura. Este texto ajuda você a se virar com a cidade que existe; não confunda isso com dizer que está tudo bem.
Duas coisas práticas. Copa fechada atrapalha o GPS, então trajeto muito arborizado pode gerar traçado impreciso, o que é limitação de aparelho e não de aplicativo. E calor forte é assunto de segurança, não de conforto: sobre isso tem caminhar no calor.
A névoa só se dissipa ao ar livre, com GPS. Fogbreaker é gratuito no iOS e no Android.
E se o assunto for o piso em vez da sombra, tem por que a calçada muda a cada casa.
